segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eclosão

O que seria voar se não apenas a alma buscando mais de si mesma?
Ardendo, clamando, desabrochando pelas fronteiras da própria carne.
Se essas possuem asas desatadas é inevitável o eclodir do corpo incontido.
Move-se o corpo e junto com sua essência se exaltam seus desejos.

O homem e a música foram feitos através de um ritmo interno.
Ritmo esse que marca a pedra na força da sua determinação
Sua a pele com a persistência na busca da perfeição,
E queima o espírito com a paixão em prol de um ideal.
Reconhece a si na arte que corta o ar e que risca o chão.

Um grito em gestos, um beijo doce ritmado, olhar terno, corpo exaltado.
Estar em tudo e ser o par, ocupar o espaço que engana e graceja do real ao irreal.
Porque quando há dança, inexistente é o solo e tampouco o ar,
apenas existe o fenômeno de flutuar.

Assim a alma canta e silencia
Aconchega no corpo que antes era fronteira e agora é totalidade.
O espaço de todos os corpos e seres faz-se suave.
Satisfação que preenche o todo. Prazer que inunda o ser.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Silêncio


Afligi-me sentindo que o mundo havia me arrancado as palavras e as sensações, que havia me tirado as cores. Havia um silêncio profundo como a manhã que surgiu coberta de névoa densa. Eu continuava a caminhar, mas com pés descompassados e as pegadas facilmente eram esquecidas por outros passos lentos que vinham atrás também sem direção.
Solidão é fazer força com os olhos espremendo-os tentando enxergar o óbvio das formas e sentimentos. E mesmo com súplico esforço não conseguir ver.
É tentar falar ou dialogar, até buscar desesperado em poemas e músicas a forma de se expressar e mesmo assim tudo ainda lhe fazer calar.
É quando o sol toca a pele gélida incapaz de tornar o sangue fervoroso.
Já me sinto incapaz de reconhecer as notas da melodia que ouvia todos os dias.
Silenciar quando nos convém é uma deliciosa opção. Há beleza no silêncio. Ele não contém limites e as fronteiras do próprio são as palavras ditas e ecoadas. Palavras podem se transformar em caos e o silêncio pode aprisionar.
Calar-me aos dizeres no acalanto do próprio peito.
Buscar a liberdade e a encontrar na verdade. Nas palavras sinceras que desacorrentam.
Precisei dizer que te odiei, mas que amei acima de todos.
Disse que queria te preservar e não ser irresponsável com seus sentimentos.
Senti que você fará falta até o fim dos meus dias.
Abri-me te amando e não temendo o imprevisível.
Direi para sempre, usarei palavras até me cansar e quando isso ocorrer usarei o silêncio. Mas o silêncio que pode ser entendido. Aquele que é dito. Aquele que você compreende.
.
* Imagem;. quadro de Sergio Fingermann (Elogio ao silêncio)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Confesso.


Confesso que não esperava sua mão estendida como um convite de fuga no meio daquela multidão.
Sentia o toque de seus dedos me levar para perto do seu peito. Era o mais perto que eu conseguia estar naquele momento aglomerado.
Mas você sabia o que queria e fez suas mãos me puxarem para perto de ti até me levar ao silêncio do seu beijo. O toque dos seus lábios fez derrubar o véu que separava os limites da realidade e do espaço. Era generalizado os planos que eu sentia naquele instante. Fechei os olhos e não ousava em abri-los. Caso o fizesse eles enxergariam uma ilusão de cores e formas que já não pertencem mais a realidade. O que se fazia real eu sentia no toque de suas mãos que envolviam minha cintura. Sentia no hálito de suas palavras que deixavam o ar mais doce e no seu perfume que apagava o cheiro da praia. Mantive os olhos, assim, fechados até adormecer em seus braços. Na noite sua pele era quente e o ar gelava. Você não permitia que ele me fizesse frio.
Sentia você e a mim, sentiamos nós.
Mas sempre chega a hora da solidão. Sempre chega a hora de arrumar as malas. Ao abrir meus olhos e olhar para trás pude perceber que uma das partes do meu corpo ficou em ti.
Voltei a enxergar e a ver as multidões aglomeradas ao meu redor. Via os carros na minha frente indo para aonde não sei. E podia ver claramente o vazio naquela vastidão preenchida e iludida.
Me perguntava aonde você se escondia e por onde você estava? Me sentia irreal.
Confesso que não esperava ver no meio daquela confusão sua mão estendida novamente. Você havia me encontrado mais uma vez e dessa em formas de palavras.
Suas cartas, mensagens e declarações chegavam diariamente enchendo minhas gavetas de papel de seda. Nelas lia-se "Não nos esqueça".
E bastava o fechar dos meus olhos para que tudo fosse real novamente.
Os papéis de seda continuavam a cair sobre mim como pétalas de rosa aveludada. As palavras contidas neles ganhavam melodia pelas paredes do meu quarto.
O último dizia "me espere, vou te encontrar. Te Amo".


*Dedicado a Diogo, que consegue estar longe e perto.

terça-feira, 17 de março de 2009

Amarelo.


Entrou em seu quarto e percebeu que a janela não estava aberta como nos dias anteriores. Sentia-se protegida por uma fina camada de vidro que detia o vento suave e frio no exterior. As cortinas geralmente dançantes hoje calavam nos cantos despercebidos do umbral.
A janela similar a uma tela resplandecia um céu cor do ouro. Jamais havia observado tal luminosidade nessa vastidão naturalmente azul. Por vezes já o vislumbrou alaranjar ou em tons escarlate, certa noite adquiriu a cor violácea. Notou que essa noite se mostrava especial, como jamais tinha visto antes o céu se mostrava brilhante e cintilava em amarelo dourado.
Pousou suave sua cabeça em seu travesseiro. Inevitávelmente seus pensamentos voavam livres lhe trazendo percepções. Pensou especialmente na prisão de suas ações. Nas inúmeras vezes que quis agir e não conseguiu como se algo a impedi-se de se mover.
As noites geralmente pareciam iguais. Mas o brilhar das nuvens lhe mostrava algo diferente, seu repouso estava diferente. A cor áurea a convidava a dormir tranquilamente deixando todos os problemas de lado como se a própria estivesse solucionado. Exigia o descanso dos hábitos e tb de seus amores. Sonolenta ela os foi deixando, permitindo que seus amores ganhassem uma segunda importancia para que se preocupa-se mais consigo mesma.
Sentiu um acréscimo de prazer por si mesma e uma vontade de planejar algo além dos seus hábitos cotidianos
A estábilidade não era mais interessante. A rotina que treinava sua disciplina já perderá a graça. Ela buscava algo mais.
A cor amarela talvez tenha sido um convite para uma vida mais cheia de delícias, cheiros, toques e prazeres. Buscou no fundo de sua alma coragem para seguir esse novo sentimento fulvo. Deparava-se sozinha em um mundo enorme e fácil de se perder em tamanho colorido. Não havia ninguém ao seu lado para segurar sua mão nem um outro para dizer o caminho, tampouco na frente dizendo alto "venha".
Seus planos passaram a lhe fazer compania. Das sementes que plantava crescia rapidamente árvores de frutas doces. Comia os frutos da incertezas e medos.
Ao se deitar, quando estava quase pegando no sono, naquele breve momento aonde se perde a conta do piscar de olhos ela pensou que no dia seguinte se vestiria totalmente de amarelo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Tempo.


Havia perdido o horário.
Estava atrasada para contemplar um dos espetáculos que mais gostava. Já passava das 19h e o sol não possuia mais o amarelo ouro, nem os prédios e capôs de carros ganhavam o dourado especial que só ocorria naquela época do ano.
O dia havia passado distraído. O tempo havia se perdido em pensamentos e emoções profundas. Houve a sensação de que o mundo havia congelado e que o tempo tinha parado.
Porém o Tic Tac do relógio moderno pendurado na parede da sala não se cansava. Era eterno seu ruído e não sossegava nem para os suspiros que vem da alma, tampouco para seus pensamentos enamorados e muito menos para o primeiro beijo apaixonado.
E era justamente esse beijo que havia lhe roubado o tempo.
Passava-se horas e dias e na sala, ainda pendurado, estava o relógio que não ousava em congelar. Acompanhado do seus ponteiros estava as memórias de um tempo vivido e de palavras de amor proferidas por um cavalheiro que estava ausente por muito tempo.
Ela alimentava seu coração com emoções que não sentia desde sua partida.
Percebia no fundo do seu ser que damas ou cavalheiros, idosos ou crianças, todos têm seu tempo e esse tempo deve ser respeitado.
Por vezes chegavam cartas até mesmo recados de onde seu amado estava e o que fazia em tantos cantos do mundo.
Com palavras doces ela saciava a saudade. Aprendeu a lidar com a ausência e com as ilusões. Ao fechar os olhos podia sentir o cheiro da pele. Se os abria conseguia ver a cor dos olhos.
Mas o relógio incansável trabalhava como a mente apaixonada da moça. O Tic Tac interminável que ecoava pela sala era como uma espera sem fim.
Pensou que o tempo chega a todos e que um dia seu tempo iria chegar. Então aquele relógio havia de parar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009



"Que passe o tempo, que passem os dias.
Que a espera seja recheada de lembranças deliciosas.
E que ao te reencontrar meu corpo se embriague do seu..."


Por Dé Cláudio.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Escoar


O ar tornou-se denso. O mundo silênciou sincronizadamente por um breve instante. Não se ouvia mais o pulsar dos relógios. Um atraso tão perfeito quanto o próprio acaso.
A Abstenção de sons fez com que Sofia, uma mulher de poucas rugas e olhar virtuoso de menina, consegui-se notar o estalar de algo que se partia e caia. O som se assemelhava com o dos próprios ossos se quebrando. Profundo e interno quanto seus desejos e pessoal como suas virtudes.
Olhou ao chão procurando algo despedaçado e encontrou a razão de tal aflição.
Próximo aos seus pés encontrara algumas letras espalhadas. Tentou entender o que aquilo significava. Sem encontrar resposta ela sentiu o peito apertar, uma dor forte a consulmiu. Sentou-se colocando sua mão firme no peito. Uma apneia se seguiu e então suas mãos já estavam encharcadas de sangue. Junto com o sofrimento a resposta veio, do seu peito havia se rasgado a palavra Amor.
Tentou descrer olhando ao céu. Mas só pode ver o azul apático. A tela de um pintor sem inspiração, as linhas vazias no caderno do poeta.
Sofia sangrava e não sabia como nem ao menos a quem pedir ajuda.
Voltou a olhar o chão e ali já se notava que próximo da primeira palavra também estavam dilaceradas as palavras; Perdão, Compaixão, Esperança, Vontade, Desejo e Liberdade.
Sentiu-se menos viva, menos humana e mais carne. Deitou se inundando de medo até que este também escorreu do seu coração rasgado. Lembrou as tantas coisas que havia vivido e as marcas que havia deixado, haveria ainda muito de sangrar.
Ela aquietou e esperou, fechou os olhos, mas conseguia sentir que cada palavra que escorria desfazia sua alma e por não possui-las deixava de compreende-las.
A encantadora mulher de olhar virtuoso foi se dissolvendo. Ao seu redor já podia-se ler as palavras; Adoração, Afeto, Força e Vontade.
Veio do último suspiro a última palavra, do interior do seu peito se emanou em letras o dizia ser a palavra Vida.
Não havia mais suspiro nem o tempo marcado. Apenas sentimentos e virtudes espalhadas.
O sangue secou e tudo se desfez. Não sobrará mais nada. Nem corpo, nem carne, nem letras e pesares.
A vida seguia sem notar que no solo rígido 5 letras fixadas e organizadas se reconstituiram em uma nova palavra. Marcado no aspero terreno era nítido ler, numa única palavra outras mais se destacavam, observavam e se traduziam em Sofia.